sexta-feira, 17 de março de 2017

Eu sou a sua pequena, viu?


Ler ouvindo “Sweep” – Blue Foundation.
  
“Quando nos encontramos,
compartilhamos histórias, você me violenta. Eu vejo,
Eu vejo um semi-círculo de dentes.”


Ele não foi afinal, mas ligou em outra noite qualquer - desgraçado, não foi para pedir desculpas -, “Alô, pequena? Sinto sua falta!” foi o que ele disse, mas o que ele deixou de dizer no que disse era ainda mais forte, tão forte que quase a ensurdeceu pelo lado de dentro: “Venha”. Era um chamado, ela sabia.
Ela sabia falta de quê ele sentia, mas também sentia falta dê - mesmo sem saber exatamente o quê, de sua parte -, sabia dos riscos e queria correr - não os riscos, não para ele -, em volta do quarteirão, pra fora da cidade, pra ver se a ideia sumia, pra ver se o desejo sumia, “correr, correr, correr” - foi o que ela repetiu em voz alta com os olhos e os punhos cerrados. “Não dá pra correr de desejo, querida, vem de dentro, e se pega, pega” - foi o que ela ouviu de si mesma em seguida.
Alô, pequena? Estou passando na sua rua, posso passar na sua casa agora?”.
Ela estava nua - pra ele ela sempre estava nua -, “preciso me vestir, rápido. Cadê minha calcinha?”. Estava em cima da cama, debaixo de inúmeros textos e livros dos poemas que ela recitava ainda há pouco em voz alta na frente do espelho, pensando nele, mas ela não sabia e ficou perturbada. “Alô, estou aqui, pequena”- foi o que ele disse - “Venha agora” foi o que ela ouviu.
Calçou os primeiros pés de tênis que avistou no quarto - pés de pares diferentes, ela nem viu -  passou o batom vermelho na boca, ajeitou o óculos com o dedo indicador, “Por que você calçou tênis sua louca?” - pensou - mas correu, correu, correu para porta , nua, para ele - linda, nua de tênis diferentes batom vermelho óculos ajeitados e piercing no nariz (eu, o narrador imagino, só imagino) -, respirou fundo e abriu, a porta, sua ferida, sua vida - e o que mais?
Uau, você está linda, como sempre”.
Entra, pode entrar, onde você quiser!”.


APD.

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