sexta-feira, 24 de março de 2017

*

Todos os caminhos me levam para o mesmo lugar.
Meus passos, eu ando - acho que isso deveria ser o suficiente.
Não faço questão por nenhum rosto ou palavra bonita.
Nenhum rosto ou bonito ou palavra me fazem questão.
Sinto-me apartado do tempo, vagando, suspenso no ar.
Nada me fisga,
Eu não fisgo nada,
Tudo se repete.
Na dúvida, respiro fundo e ouço a música,
Ela existe, eu sei que sim, em algum lugar aqui dentro,
É minha, meu jeito, meu tempo,
É só respirar fundo e sentir a cadência,
Deixar ir, pulsar.
Porque no fundo é de ritmo que se trata: “Continua assim, não para”.
Do que você quiser que se trate,
Sexo,
Ou pontos no tempo,
Passos,
Ou notas,
“Não para, não para”.


APD.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Eu sou a sua pequena, viu?


Ler ouvindo “Sweep” – Blue Foundation.
  
“Quando nos encontramos,
compartilhamos histórias, você me violenta. Eu vejo,
Eu vejo um semi-círculo de dentes.”


Ele não foi afinal, mas ligou em outra noite qualquer - desgraçado, não foi para pedir desculpas -, “Alô, pequena? Sinto sua falta!” foi o que ele disse, mas o que ele deixou de dizer no que disse era ainda mais forte, tão forte que quase a ensurdeceu pelo lado de dentro: “Venha”. Era um chamado, ela sabia.
Ela sabia falta de quê ele sentia, mas também sentia falta dê - mesmo sem saber exatamente o quê, de sua parte -, sabia dos riscos e queria correr - não os riscos, não para ele -, em volta do quarteirão, pra fora da cidade, pra ver se a ideia sumia, pra ver se o desejo sumia, “correr, correr, correr” - foi o que ela repetiu em voz alta com os olhos e os punhos cerrados. “Não dá pra correr de desejo, querida, vem de dentro, e se pega, pega” - foi o que ela ouviu de si mesma em seguida.
Alô, pequena? Estou passando na sua rua, posso passar na sua casa agora?”.
Ela estava nua - pra ele ela sempre estava nua -, “preciso me vestir, rápido. Cadê minha calcinha?”. Estava em cima da cama, debaixo de inúmeros textos e livros dos poemas que ela recitava ainda há pouco em voz alta na frente do espelho, pensando nele, mas ela não sabia e ficou perturbada. “Alô, estou aqui, pequena”- foi o que ele disse - “Venha agora” foi o que ela ouviu.
Calçou os primeiros pés de tênis que avistou no quarto - pés de pares diferentes, ela nem viu -  passou o batom vermelho na boca, ajeitou o óculos com o dedo indicador, “Por que você calçou tênis sua louca?” - pensou - mas correu, correu, correu para porta , nua, para ele - linda, nua de tênis diferentes batom vermelho óculos ajeitados e piercing no nariz (eu, o narrador imagino, só imagino) -, respirou fundo e abriu, a porta, sua ferida, sua vida - e o que mais?
Uau, você está linda, como sempre”.
Entra, pode entrar, onde você quiser!”.


APD.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Sail

Hoje é do silêncio - tão raro - que me faço valer pela manhã.
Talvez eu queira abraçar o vazio, contornar, costurar,
Fazer o laço que me escapa.
Fazia tempo que não olhava o céu enquanto caminhava,
E notava as nuances das nuvens, os limites entre elas, e sentia o vento em minha fronte, e me desesperava com o nada.
A linha é tão tênue, tão tênue - dizem.
Tão tênue que talvez nem exista - penso.
O que garante a minha sanidade?
O que garante o meu laço com a “realidade”?
Nada,
O mesmo nada desesperador do céu.
Estou nu, com um relógio de pulso no braço,
Nu ante o tempo,
Mas inda assim debaixo de um sol - e é o peso que cria a curva que forja o tempo.
Qual é o sol que me curva?
Qual é o peso que me cria?
Qual é a palavra pesada que forja o meu tempo? Meu retorno? Minhas repetições?
Estou nu, com um relógio de pulso no braço porque é tudo que tenho -
Desesperado.
Procurando qualquer palavra para fazer frente ao nada,
Ao peso do nada,
Ao peso que é o nada antes de dizê-lo.

APD

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Eu vou te perseguir, te esfolar vivo, mais uma palavra e você não sobreviverá*

Chovia lá fora, chuva de molhar bobo, no caso eu, que resolvi sair assim mesmo - caminhar às vezes é imperativo.
Ninguém na rua, ninguém em lugar algum, pra onde foram todos - ficaram? Nem mesmo os cachorros de rua estavam na rua naquela hora - cachorros são sábios encarnados. Sabia? -,
só eu bobo e a chuva boba de molhar bobo me molhando,
Porque resolvi caminhar - resolvi, certo?
A rua era minha, a chuva, as poças d’água,
O vazio, o lugar nenhum, a solidão,
O silêncio, o nada - a paz, certo?
Sentei-me no asfalto - pra quê voltar?
A enxurrada batia em minhas costas, - pra quê voltar?
Passava água por entre as minhas pernas, por dentro de minhas roupas.
Deitei-me no asfalto - pra quê voltar?
A água cobriu minha cabeça,
Nenhum barulho a não ser o da violência da água contra a minha cabeça,
Nenhuma violência a não ser a da água.
E nenhuma voz -  Oh god, nenhuma voz!
Elas cessaram, ficaram em casa, não são bobos, os das vozes.
De bobo, só eu, menos sábio que um cachorro de rua
e coberto da chuva de molhar bobo na rua - definitivamente, eu não vou voltar.


APD.

(Título retirado de Eyes on Fire - Blue Foundation)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Seus murmúrios invisíveis me rodeiam pouco a pouco*


Ler ouvindo “Little by little” – Blue Foundation



Você já é um homem agora,
Tão lindo e tão fálico,
Ombros largos, gestos largos,
Forte aperto de mão.
Mas seu sorriso é tão triste e doído,
Seu sorriso é tão magistralmente contido,
Que faz tudo parecer uma mentira,
Um equívoco, uma prisão.
Vejo seus olhos quando miram longe,
Vazios, perdidos, d e s e s p e r a d o s,
Coisa de quem chora escondido por dentro,
De quem se pergunta “quem é você” na frente do espelho,
Coisa de quem carrega um fardo em forma de segredo.
Quase ouço seus pensamentos:
“O que é que eu estou fazendo aqui?”
“O que é que eu estou fazendo da minha vida?”
“É tudo tão vazio e irreal”
“Meu deus, por que é tudo tão vazio?”.
Você já é um homem agora,
Mas parece tão triste e sozinho
Que seu sorriso esconde um pedido de socorro
– Eu ouvi ok? Eu estou aqui, eu te ouço.
Você já é um homem agora,
E se por vezes a vida pode parecer tão desoladora e doída,
É porque é.
E se por vezes a verdade pode parecer tão afiada e dilacerante,
É porque é.
Mas não importa o peso do seu fardo, irmão,
Eu estou aqui, eu te ouço,
Outro dia tentei te oferecer algum sentido,
Mas já não vou mais mentir, você já é um homem agora: não há.
E não importa o peso do seu fardo, irmão,
Meus ombros são seus ombros.
Hoje. Sempre.

APD.



Título retirado da música “Little by little” – Blue Foundation

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Insônia

O silêncio a essa hora, só é interrompido pelo som desajeitado da geladeira. Depois por meus próprios passos cuidadosos e logo em seguida por um tilintar de canecas por causa da falta de acuidade de alguém que deveria estar dormindo.
Depois,
Pelo borbulhar da água do café.
Depois,
O silêncio é rasgado pelo próprio cheiro do café quentinho.
Sim porque cheiro também é dizer e dizer também é barulho, e alguma coisa quentinha também é dizer, e no escuro das três e quarenta da madrugada, é quase: “Está tudo bem, você vai ficar bem agora, e ao menos por hora, aquecido”.
Aos poucos os vizinhos vão acordando, e tem barulho de carro, de panela que cai no chão e gente que grita “desgraça”, e tem cachorro que late, tem barulho de moto ao longe, de um ou outro ônibus que começa a rodar, de despertadores e mais despertadores, aí a geladeira já nem pode mais ser ouvida, ainda está lá, ainda faz barulho, mas é mais baixinho, já nem incomoda, já nem assusta.
Acho que a insônia tem algo a dizer, porque também é barulho, tipo estalo na cabeça que a gente confunde com barulho no portão, que a gente confunde com “Meu deus estão invadindo a minha casa”, que a gente confunde com “será que eu esqueci a janela aberta? ou a porta destrancada?” que a gente confunde com “será que eu tenho algo pra ser roubado?” ou “algo pra ser ouvido” que é quase “será que eu tenho algo pra me dizer?” que é definitivamente “Acho que é melhor não ouvir, portanto é melhor acordar”.
Acho que sim! Acho que é mais!
E talvez - mais do que falar - a insônia queira calar, fazer calar, e acordar seja fazer com que o algo do silêncio que fazia o verdadeiro barulho já nem possa mais ser ouvido - ainda está lá, ainda faz barulho, mas é mais baixinho, já nem incomoda, já nem assusta - porque “é melhor você acordar e ouvir todo barulho do lado fora, do que o barulho – esse potencialmente verdadeiro e ensurdecedor – do lado dentro”. 



APD.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Che vuoi?

Ler ouvindo "Eyes on fire"- Blue fundation
( https://www.youtube.com/watch?v=8IHFVn0sv14 )

"Eu vou te perseguir
Te esfolar vivo
Mais uma palavra e você não sobreviverá.
Eu não tenho medo
Do seu poder roubado
Posso saber o que você está querendo
a qualquer hora.
Eu não vou aliviar a sua dor,
Eu não vou acalmar a sua tensão
Você vai esperar em vão."

(Blue Fundation - Eyes on fire)



Uma sensação, frio no estômago, pressão no peito (do peito?) - pressão pra algo, pressão para o quê? Pressão para parar o quê?
Um clarão, um borrão, de vontade, de desejo – desejo de quê?
O que quero Eu? O que quero a mais?
Aprecio uma tela embaraçada de rabiscos - embarazada? – que podem ser qualquer coisa. Pode ser o isso que você quer, pode ser isso, mas a princípio, definitivamente é algo, e algo que não se sabe o que e por isso é tensão de ser algo que ainda não se sabe, mas que existe, exige.
São rabiscos emaranhados e caóticos de uma tela embarazada e que me lançam em uma espécie de indefinição do objeto - Que isso? Que queres tu? Que queres isso? Lançam-me por um momento em um momento anterior à construção do objeto do desejo que virá a seguir, porque sempre virá - só não para os mortos.  Lançam-me na tensão que é ter de emoldurar a pressão, na angustia que é ter de emoldurar um algo pra que enfim se torne um desejo.
Mas o quê? Desejo de quê? Que queres? Não sei, mas acho que quero e quero já, quero agora – acho que quero por querer que passe o querer.
Quero querer ou não tenho escolha? Nem sei.
Já nem sei se quero, quanto mais o quê.
Já nem sei se sou eu quem quer, quanto mais quem sou.
Encarei a tela embarazada e seus rabiscos, pensei ter ouvido algo, cheguei mais perto, sussurro: Tu és o que quer? - e o sentido dessa pergunta é triplo.


APD.






domingo, 25 de dezembro de 2016

A palavra está morta

Dentre todos os flertes, o mais ensurdece-dor: com o passado.
O presente, linha tênue e escorregadia, não suporta nem a si mesmo, quanto mais o peso de uma nota grave e silenciosa: Venha garoto, venha, é o avassala-dor que te espera no final desse corre-dor. O presente não suporta nem o peso de uma escolha, quem dirá de uma existência. Venha.
E depois? – assustado, medroso.
O depois é de ninguém: futuro.
Uma piscadela, um olhar a mais, demorado – está quase na hora, está pronto? –, um sorriso contido quase desesperado, um toque na perna disfarçado tipo típico chamado: É agora!
Final do corredor à esquerda, um banheiro apertado – Tranca a porta –, respiração funda, calor, suor, beijo de língua no passado – Mais que uma transa, um corte-quase-canto-quase-grito-quase-queda!
Mas e o futuro?
Pra você não há mais futuro, és tu ou furo.
...
Se fores tu que cai, é furo, se for o furo que cai, és tu sem furo.
 Dentre todas as escolhas, a mais afiada, a mais infalível: a faltante.
Isso, garoto, isso, não há escolha.
Meu deus! Meu deus!
Você não entende nada de deuses, repete comigo: de agora em diante,
De agora em diante,
Eu só acredito nos deuses que chamam.
Eu só acredito nos deuses que chamam.



APD.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Do que me vale o sexo se eu posso ter a sua voz?

Respirar aquela voz, degustá-la, fechar os olhos e sentir cada milímetro, cada partícula, cada ínfimo canto sujo do meu imo vibrar no mesmo tom, foi quase deixar de existir, ou quase transcender minha existência, quase uma resposta, ou mais: um chamado. Foi um ponto de referência para além da avenida de mão única que rege a minha existência em uma espécie de laço social, foi o próprio ponto final, o encerramento da vida por algum glorioso momento, mas sem dor, foi o encerramento da dor, sem drama, ou como um “vai pra puta que te pariu civilização filha da puta”, foi como uma explosão narcótica de um sabor delicioso nas papilas gustativas do real ou a convergência das carícias de mil mãos em um único gozo para além do sexual, ou talvez mais, talvez mais, talvez mais. “Mais uma vez? E se não para?”, disse-me a outra voz - a que reprime, que subsiste dentro de mim. Não, nunca para, este não é o fim - disse eu mesmo, é impossível se desvencilhar daquela voz inconfundível, sempre existirá como um marco, como uma sombra, se minha existência era linha reta, virou círculo, certamente que sim! Aquela coisa, aquela voz, destruiu meus neurônios, destruiu meus caminhos, ou melhor, construiu o seu próprio caminho em minha cabeça, um bem largo e que se oferece como passagem para tudo quanto há. Respirar aquela voz, sentir seu cheiro e o baque que dá no coração, oh god - diria Caio. “Ele morreu, se esqueceu? Ele morreu!” - a outra voz, da outra parte de eu mesmo e que fala, que reprime e usa palavras contra mim - mas eu já disse que entre toda palavra, entre toda letra existe um hiato, uma queda, algo que se perde e nunca mais se recupera e é por isso que é ineficaz, é frustrante, é pouco e esse é o problema em comum entre nós, entre eu e o outro eu: nós falamos demais. A voz, aquela voz, a do gozo, é mais, não usa palavras e é por isso que é mais, mais forte e mais gostosa, quase paralisante, ela usa o canto, o sussurro, o silêncio. É quase grito, mas não, a linha é tênue, mas não. É um quase mais quase que qualquer outro quase - aquela voz, a sem palavras - definitivamente. “Mas, não é só isso, você sabe né?”. Não interessa! “A pergunta certa é: E agora, o que é vai  fazer com isso?”. Já chega! Não me venha colocar uma palavra sequer onde não a cabe. “Onde não a-cabe, você quis dizer?”. Já chega, eu não vou mais te ouvir, não você. “Não preciso tentar colocar palavras, você já fez isso por mim. Isso virou um texto, não vê? Seu texto, suas palavras, sua queda.”.

APD.

domingo, 30 de outubro de 2016

O tom do caos


Ler ouvindo “Nude – Radiohead”
(https://www.youtube.com/watch?v=1ky1td3_6LY)

“Você se pinta de branco
E enche tudo de barulho,
Mas alguma coisa estará faltando,
Quando você encontra, já se foi,
Quando você sente, não sente mais,
Você saiu dos trilhos”.



Foi de caos o baixo que tocou o coração,
Caos brando, melancólico, suave, escarlate do batom no peito.
E eu disse a cada uma delas: Escuta garota? Sentes? Faz assim, flutua em mim, devagar, - dê-vagar -, feito o baixo que detém o tom do caos,
Que o baixo é que tece a trilha dos desejos graves, que não se poderia sequer pensar, quanto mais dizer, quanto mais gritar.
Que o baixo é o que faz gozar pelos poros em arrepios o-que-quer-que-entre como pulsação por qualquer-lugar-que-seja - que seja, que nem suspiros de eu te amo ao pé do ouvido,
Ou beijos de lascívia na virilha.
É o baixo que dá o fundo, o tom, a voz, preenche feito fantasia, porque no fundo o que importa é a cadência, que nem tombar pra morte, cadente, deitar no chão, a dois, e morrer, a dois. 
Faz do tom do caos o baixo de um poema e o recita feito caos de um sorriso desconcertante, porque triste e feliz, porque excita, paralisa, ressuscita
Dá-me o grave da sua voz, da sua alma, do seu silêncio. Dá-me o tom do seu desejo,
Que o resto eu pego de ouvido.


APD.